Carne de predador com risco de neurotoxinas
Vamos ser brutalmente honestos: você compraria um produto com o rótulo acima?!
Provavelmente não.
Mas a indústria pesqueira é genial em marketing, e por décadas eles venderam essa bomba-relógio sob um nome simpático, inofensivo: Cação sem espinhas.
A recente vitória no Rio de Janeiro, retirando o cação da merenda escolar, não é apenas um triunfo da conservação ambiental. É uma vitória da saúde pública. Mas a guerra está longe de acabar. Enquanto você lê isso, toneladas de carne de tubarão e raia estão sendo servidas em lares e restaurantes por todo o Brasil, muitas vezes para quem é mais vulnerável: crianças e gestantes.
A Ciência do veneno: entendendo a biomagnificação
Não é alarmismo, é bioquímica. Tubarões são predadores de topo (ou ápice). Eles não comem algas; eles comem peixes que comeram outros peixes, que por sua vez comeram plâncton contaminado.
Esse processo se chama biomagnificação. Diferente de nós, que eliminamos toxinas, o oceano acumula metais pesados como o Mercúrio (Hg), despejados por garimpos e indústrias. Esse mercúrio se transforma em metilmercúrio — uma forma orgânica altamente tóxica que se liga às proteínas musculares.
- O que dizem os dados: estudos da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e da UFRJ analisaram amostras de "cação" (frequentemente Tubarão-azul, Prionace Glauca, e Tubarão-lixa) vendidos em mercados do Rio e de São Paulo. O resultado? Níveis de mercúrio que frequentemente ultrapassam os limites de segurança da ANVISA (0,5 a 1,0 mg/kg).
- O impacto no corpo: o metilmercúrio é neurotóxico. Ele atravessa a barreira placentária. Em fetos e crianças em desenvolvimento, pode causar danos irreversíveis ao sistema nervoso central, atrasos cognitivos e motores. Você está, literalmente, comprometendo o futuro do seu filho por causa de uma moqueca.
Entenda mais sobre este problema de saúde humana e oceânica neste nosso post aqui ou sobre a contaminação por mercúrio especificamente neste post aqui.
O Brasil no centro do massacre
Muitos brasileiros acham que a matança de tubarões é “coisa da Ásia” para fazer sopa de barbatana. Errado. O Brasil é um dos maiores importadores e consumidores de carne de tubarão do mundo. Comemos o que o resto do mundo rejeita. As barbatanas valiosas vão para a Ásia, e a carcaça tóxica (“o lixo”) é despejada no nosso mercado interno como cação barato.
Uma reportagem investigativa recente da Mongabay e do O Eco (2023-2025) expôs como essa carne é licitada para escolas e hospitais públicos. Estamos alimentando doentes com veneno. A ironia seria cômica se não fosse trágica.
A Hipocrisia do "Peixe sem espinha
O termo “cação” é uma lavagem cerebral linguística. Ele desvincula o produto (carne) do animal (o tubarão).
- Se é tubarão-martelo (Sphyrna spp., ameaçadíssimo de extinção), é cação;
- Se é uma raia-viola (em perigo crítico), é cação.
Ao comprar “cação”, você está jogando Roleta Russa com a biodiversidade. Você pode estar comendo uma espécie que está à beira da extinção, protegida por lei, mas que foi processada em postas e perdeu a identidade.
O que você precisa fazer (não é um pedido, é um dever)
- Elimine o Cação: corte radicalmente. Não existe “cação de cativeiro”. Todo cação é um animal selvagem extraído do mar.
- Exija Rastreabilidade: No peixeiro ou no restaurante japonês, pergunte a espécie. Se responderem “peixe branco” ou “cação”, não compre. A dúvida favorece o infrator.
- Apoie a Divers for Sharks: Nós fornecemos os dados técnicos para que legisladores criem leis como a do Rio. Sem apoio popular e doações, não temos como pagar os laudos e as campanhas que enfrentam o lobby da pesca industrial.
O oceano não aguenta mais. E, pelo visto, o seu fígado também não.
Essa briga não é barata e a indústria da pesca tem bilhões.
Nós temos você.
Para tirar o veneno da merenda escolar no Rio, foram meses de reuniões, laudos técnicos caros e pressão política incansável. Agora, precisamos levar essa proibição para o nível federal e enfrentar o lobby industrial em Brasília. A Divers for Sharks não recebe dinheiro de governo nem de empresas que destroem o mar. Nossa independência vem da sua coragem de meter a mão no bolso e financiar a verdade. Se você não quer mais tubarão disfarçado no prato de ninguém, transforme sua indignação em ação agora.