Cação é tubarão: a matemática do veneno no prato dos seus filhos

Carne ce cação na merenda escolar: Grite com toda força NÃO!

Carne de predador com risco de neurotoxinas

Vamos ser brutalmente honestos: você compraria um produto com o rótulo acima?!

Provavelmente não.

Mas a indústria pesqueira é genial em marketing, e por décadas eles venderam essa bomba-relógio sob um nome simpático, inofensivo: Cação sem espinhas.

A recente vitória no Rio de Janeiro, retirando o cação da merenda escolar, não é apenas um triunfo da conservação ambiental. É uma vitória da saúde pública. Mas a guerra está longe de acabar. Enquanto você lê isso, toneladas de carne de tubarão e raia estão sendo servidas em lares e restaurantes por todo o Brasil, muitas vezes para quem é mais vulnerável: crianças e gestantes.

A Ciência do veneno: entendendo a biomagnificação

Não é alarmismo, é bioquímica. Tubarões são predadores de topo (ou ápice). Eles não comem algas; eles comem peixes que comeram outros peixes, que por sua vez comeram plâncton contaminado.

Esse processo se chama biomagnificação. Diferente de nós, que eliminamos toxinas, o oceano acumula metais pesados como o Mercúrio (Hg), despejados por garimpos e indústrias. Esse mercúrio se transforma em metilmercúrio — uma forma orgânica altamente tóxica que se liga às proteínas musculares.

Entenda mais sobre este problema de saúde humana e oceânica neste nosso post aqui ou sobre a contaminação por mercúrio especificamente neste post aqui.

O Brasil no centro do massacre

Muitos brasileiros acham que a matança de tubarões é “coisa da Ásia” para fazer sopa de barbatana. Errado. O Brasil é um dos maiores importadores e consumidores de carne de tubarão do mundo. Comemos o que o resto do mundo rejeita. As barbatanas valiosas vão para a Ásia, e a carcaça tóxica (“o lixo”) é despejada no nosso mercado interno como cação barato.

Uma reportagem investigativa recente da Mongabay e do O Eco (2023-2025) expôs como essa carne é licitada para escolas e hospitais públicos. Estamos alimentando doentes com veneno. A ironia seria cômica se não fosse trágica.

Tubarões com menos de dois palmos, também chamados de cação, caçonete ou ainda caçôa
Tubarões com menos de dois palmos, também chamados de cação, caçonete ou ainda caçôa

A Hipocrisia do "Peixe sem espinha

O termo “cação” é uma lavagem cerebral linguística. Ele desvincula o produto (carne) do animal (o tubarão).

Ao comprar “cação”, você está jogando Roleta Russa com a biodiversidade. Você pode estar comendo uma espécie que está à beira da extinção, protegida por lei, mas que foi processada em postas e perdeu a identidade.

O que você precisa fazer (não é um pedido, é um dever)

  1. Elimine o Cação: corte radicalmente. Não existe “cação de cativeiro”. Todo cação é um animal selvagem extraído do mar.
  2. Exija Rastreabilidade: No peixeiro ou no restaurante japonês, pergunte a espécie. Se responderem “peixe branco” ou “cação”, não compre. A dúvida favorece o infrator.
  3. Apoie a Divers for Sharks: Nós fornecemos os dados técnicos para que legisladores criem leis como a do Rio. Sem apoio popular e doações, não temos como pagar os laudos e as campanhas que enfrentam o lobby da pesca industrial.

O oceano não aguenta mais. E, pelo visto, o seu fígado também não.

Essa briga não é barata e a indústria da pesca tem bilhões.

Nós temos você.

Para tirar o veneno da merenda escolar no Rio, foram meses de reuniões, laudos técnicos caros e pressão política incansável. Agora, precisamos levar essa proibição para o nível federal e enfrentar o lobby industrial em Brasília. A Divers for Sharks não recebe dinheiro de governo nem de empresas que destroem o mar. Nossa independência vem da sua coragem de meter a mão no bolso e financiar a verdade. Se você não quer mais tubarão disfarçado no prato de ninguém, transforme sua indignação em ação agora.

Autor desse post

Paulo Guilherme "Pinguim"

Mergulhador, ativista e fundador da Divers for Sharks.

Curtiu? Compartilhe!