As águas do planeta terra, de importância vital e que dispensa maiores explicações, é hoje considerada nossa riqueza maior, fonte de toda a vida e berço da origem das primeiras formas vivas no planeta. Disso ninguém tem dúvida alguma. É um bem tão importante que costuma ser o primeiro detalhe a ser pesquisado nas explorações de outros planetas. Se o ambiente contiver água, pode ser que exista vida no planeta.

Porém ao mesmo tempo é impressionante a negação que se tem sobre a natureza real das nossas águas. Costumeiramente considerada e chamada de recurso (odeio este termo), ou ainda mais simplista, de composto químico. Infelizmente mesmo a água não escapa do utilitarismo maléfico da sociedade atual.

Já pensaram que quase nunca se associa a água como sendo natureza? Pois é. Pensem bem na seguinte fala “Vou passar o final de semana em contato com a natureza”. Pensa-se logo em estar em um local em contato com o verde das matas, animais silvestres de uma serra, etc. Quem por exemplo pensa em “contato com a natureza” como por exemplo estar na praia? Seja de rio, seja de mar…. Isto porque nossas praias já estão mais do que incorporadas ao nosso lazer e praticamente são a varanda ou quintal de nossas casas. Será que realmente pensamos na praia, na areia, no mar e na interface água x areia como natureza? Normalmente não. Infelizmente…

Os defensores dos animais, ambientalistas e até mesmo veganos também costumam cometer este erro. É recorrente eu ouvir em palestras ou estudos dos mais altos níveis, a referência da importância da água como recurso. Ou seja, recurso a ser usado, consumido, comprado e vendido por nós humanos… utilitarismo na sua mais triste forma.

É preciso resgatar nossas águas como natureza também, sejam as águas dos mares e oceanos, as dos rios e lagos e até mesmo a água da chuva, da neve e das geleiras do nosso planeta. A água, centenas de milhões de anos antes de ser um recurso, sempre foi e continua sendo natureza. E a natureza mais rica do nosso planeta, além de também da mais extensa! Tanto se fala da proteção de nossas matas, nossas terras, florestas e verde, e não lembramos que nosso planeta é composto por dois terços, ou mais, de natureza aquática (já mudando o conceito e deixando o “recurso” de lado).

Se pararmos para pensar como tratamos diferentemente esta natureza fluida, nossas águas, da natureza sólida, nossas terras+matas+etc, vemos como somos injustos, ingratos e degradantes. Basta pensarmos nos esgotos sanitários e no lixo das ruas. E sejam cidades praianas ou mesmo no interior do país. Esgoto despejado in natura por uma casa no planalto central, fatalmente irá em algum momento cair em rio ou lençol freático, que certamente terminará seu fluxo onde? Em algum braço de oceano. E se pensarmos no Pantanal Matogrossense, mesmo lá certamente irá influenciar nos mares. E claro que antes mesmo de chegar aos oceanos já estará afetando e comprometendo a natureza das águas pantaneiras.

E isto tudo sem pensar na imensidão de entidades, vivas e não vivas, que estão presentes nas águas, sejam doces ou salgadas. E não falo só das criaturas visíveis a olho nu…  falo também das microscópicas também. Basta pegarmos um copo de água do mar ou de um rio, que mesmo aparentando transparente e pura, certamente conterá diversos elementos e também vida!

Outra forma de enxergar como desprezamos e desnaturalizamos nossas águas, é pensar por exemplo nos três maiores problemas ambientais do mundo no momento. Tão grandes, importantes e dependentes de nossa natureza aquática que vou comentar brevemente um de cada vez.

Aquecimento global. Tanto falamos sobre como será a vida nas cidades, como as grandes metrópoles e seus habitantes sofrerão com o aquecimento das temperaturas no ar e nas terras…. Mas se focamos na problemática do aumento da temperatura de nossas águas, o quadro se torna imensamente mais crítico! O derretimento de massas de gelo dos pólos é só uma pequena parte deste problema. A morte de corais simbioentes com determinadas algas, influenciando na base de toda cadeia de vida marinha, será certamente catastrófico. A acidificação dos oceanos pela poluição e carbono é outro problema. E ainda temos que lembrar da elevação dos níveis dos mares. E aí quem pensa que apenas as cidades praianas serão afetadas, muito se engana… Basta pensar, por exemplo, na cidade do Rio de Janeiro, onde moro. Cidade beira de praia, com bairros famosos como Copacabana, Ipanema e Leblon, que não serão os mais afetados não.. nem a cidade como um todo. No caso do Rio de Janeiro, os municípios mais afetados serão os do fundo da Baía da Guanabara, a chamada Baixada Fluminense… Baixada justamente por encontrarem-se abaixo do nível do mar. Falar de aquecimento global é falar de água, diretamente água.

Efeito Estufa. São vários os gases de efeito estufa, mas vou me ater ao mais conhecido e “volumoso” deles, o dióxido de carbono, famoso CO². Não vou perder tempo sobre o erro da continuidade no uso de combustíveis fósseis, sua queima em motores de carros e a produção de CO², creio que a produção deste gás já seja razoavelmente entendida. Vou falar é do oposto, da fixação do CO², da sua “reabsorção” da atmosfera pela natureza. Seja honesto e me diga se o que passa pela sua cabeça não é o plantio e manutenção de árvores? Ainda mais quando se pensa na hipocrisia que é o chamado Crédito de Carbono…. Este crédito compensatório é igual ao que? Resposta rápida de todos: plantio de árvores… normalmente eucalipto (outro problema, mas para outro texto). Alguém quando pensa em compensação de emissão de CO² pensa na compensação das águas? Pois deveria… entre 70 e 80% da fixação do gás carbônico do nosso planeta é realizado por fitoplâncton. Realmente uma “planta”… algas microscópicas viventes na natureza das águas. O tal recurso água para tantos, é a casa natural dos grandes fixadores de carbono do Planeta Terra (irônico o nome, não?) Fitoplâncton… guarde este nome. A sua, a minha, a nossa, TODA vida no planeta hoje se deve a ele… uma criatura microscópica que depende dos mares, oceanos e rios em equilíbrio para continuar vivendo, e assim assegurando a NOSSA vida.

Produção de Oxigênio. (ou ainda A grande mentira: A Amazônia é o pulmão do mundo). Peço perdão já comecei quebrando um grande paradigma… tal como o crédito dos presentes entregues no último mês do ano não vem de uma ilusão chamada Papai Noel, o oxigênio tão importante para nossa vida, o famoso O² não vem principalmente das nossas tão respeitadas e valorizadas árvores da floresta amazônica. Vem de uma das mais humildes e minúsculas criaturas da terra… sabe quem? Ele mesmo, o agora já conhecido Fitoplâncton!

Me perdoem mas aqui eu peço uma grande salva de palmas para o F.I.T.O.P.L.Â.N.C.T.O.N!!!!!

Estudos mostram que 80% ou mais do oxigênio consumido no planeta é produzido por estes pequenos seres representantes das plantas e que vivem na natureza aquática da nossa Terra. E sobre oxigênio creio que não preciso gastar digitação nem seu tempo, caro leitor. Oxigênio é oxigênio, nós o respiramos e pronto! Certo?

Conclusão: Estes são os talvez maiores motivos meus amigos, para se parar de tratar e chamar a água de recurso. Chega de utilitarismo e de encarar a água apenas como recurso! Precisamos quebrar este paradigma ainda mais profundo no nosso subconsciente: ÁGUA é natureza, não é recurso presente no mundo para nós decidirmos como usar, proteger ou não proteger. Afinal já que falamos que água é vida, isto quer dizer que a água merece ser respeitada, preservada protegida e bem cuidada, pois se água é vida, protegendo e entendendo nossas águas como devemos, estaremos também protegendo a nós mesmo! Se água é vida, protejamos a VIDA das nossas águas!

Abraços a todos e até a próxima!