Imagine um incêndio no qual os bombeiros, ao invés de apagar o fogo, resolvessem discutir quem provocou o incidente. Esta situação é semelhante ao que vem acontecendo com o vazamento de óleo que está atingindo o litoral do Nordeste há mais de 50 dias. Enquanto o Governo Federal discute quem é o culpado, voluntários, ONGs e os governos estaduais se mobilizam para limpar as praias e evitar que as manchas destruam áreas de proteção ambiental.

O vazamento atingiu 2.100 quilômetros dos nove estados da região e pode ter começado entre os meses de julho e agosto. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ) apontam que origem pode estar entre 600 a 700 quilômetros da costa do Brasil, na divisa entre os estados de Sergipe e Alagoas. Segundo eles, o vazamento pode chegar aos estados do Espírito Santo e Rio de Janeiro, dependendo deslocamento feito pelo óleo.

“As praias do Norte e Nordeste vão ficar com resquícios do óleo pelos próximos 20 anos. Se chegar ao Sul da Bahia, o Espírito Santo é a bola da vez”, explicou o oceanógrafo David Zee, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro ao jornal O Dia. Na entrevista, ele ainda apontou que as possíveis áreas de entrada da mancha no estado fluminense seriam as cidades de São Francisco de Itabapoana, Barra de São João e Quissamã.

No Nordeste, grupos como os Guardiões do Litoral se mobilizam para limpar as praias, muitas vezes usando as próprias mãos, como mostra essa matéria da BBC Brasil. Ela ainda alerta para o risco do contato com óleo, que pode liberar gases e causar problemas respiratórios, quando entra em contato com o sol ou é aquecido. Em algumas cidades, equipes de limpeza municipais têm ajudado, mesmo sem equipamento adequado para essa atividade.

Enquanto isso, no Twitter, o Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, ao invés de anunciar medidas e trabalhar, resolveu eleger ‘inimigos’. O primeiro deles foi a organização Greenpeace, alvo do político do partido Novo, nos quais ele acusa o grupo de não fazer o trabalho que seria… DELE. Depois foi a vez de apontar as baterias para a deputada do Psol-SP, Sâmia Bomfim, porque ela questionou a postagem dele em relação a ONG. Parece que o objetivo é tirar o foco do problema e da inabilidade da pasta em resolver o problema.

Para chamar a atenção para o problema, nesta segunda-feira (20), o Esporte Clube Bahia entrou em campo com um uniforme manchado de óleo. A partida, válida pela 27ª rodada do Campeonato Brasileiro, será contra o Ceará. As camisas utilizadas serão leiloadas e o valor arrecadado será doado aos voluntários que trabalham nas limpezas das praias.

Bolsonaro extinguiu os comitês do plano de ação de incidentes com óleo

A demora e a desorganização do Governo Federal para combater o vazamento de óleo pode estar relacionado com a extinção de dois comitês criados em 2013 e que integravam o Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo em Água (PNC). Esse fato ocorreu em abril deste ano, junto com outros 50 organismos semelhantes, por meio de decreto do Presidente da República, Jair Bolsonaro.

Segundo matéria da Folha de São Paulo, os comitês extintos eram o Executivo e o de Suporte. Ambos eram compostos por Ministério do Meio Ambiente, Ministério de Minas e Energia, Marinha, Ibama, Agência Nacional do Petróleo, entre outros. A característica desses comitês era reunir membros do governo, empresas e da sociedade civil acompanhar e assessorar ações do Poder Executivo, democratizando a participação do cidadão no processo político.

Por causa da falta de ação do Governo Federal, o Ministério Público Federal (MPF) entrou com uma ação contra por omissão diante do maior desastre ambiental no litoral brasileiro e pediu que a Justiça Federal obrigue a União a colocar o PNC em ação em 24 horas. Até agora as ações têm sido tímidas e ineficazes para conter o vazamento de óleo.

Nos pronunciamentos feitos no Twitter, o presidente Jair Bolsonaro diz que o material é de origem Venezuelana. No entanto, isso não significa que a Venezuela seja responsável pelo vazamento. Muito pelo contrário, as investigações apontam que o óleo tenha vazado durante um abastecimento de um navio para o outro em alto mar.